sábado, 9 de janeiro de 2021

Janda.

 De sua varanda ela enxerga toda a praça Comendador Freire.

Ela vela por todos nós.

Procura por rostos conhecidos - brincadeira ela viu nascer quase metade da cidade,

ou mais.

Ela procura por pessoas que talvez precisem de alguma coisa, tipo um ajutório, como se diz 

por lá.

E as pessoas vêm até ela, às vezes realmente precisando de alguma coisa, que ela sempre ajuda,

ou apenas para reverenciá-la, para trocar um dedo de prosa.

14 pessoas abençoadas tiveram o privilégio de chamá-la de mãe, muitas de vó, outras de bisa e 

outras tantas de madrinha.

Eu tive a honra de ser um de seus netos.

Sempre tive um enorme carinho por ela, desde que me conheço por gente.

Quando criança, quando adolescente, mesmo depois de homem feito quando ia trabalhar

na cidade, ela atravessava a rua e ia me chamar: "venha armoçar".

Tinha sempre um arroz com cenoura bem picadinho, uma polenta com molho de tomate

e alguma outra mistura, mas o mais importante para mim era ela ali, sentada do meu lado.

Quando terminava o almoço eu levava para ela um sorvete de leite moça que ela gostava

muito, e ficávamos ali, juntos olhando a praça, até chegar algum freguês no meu carro de sorvete e

eu sair correndo para atendê-lo.

Ela sempre me deu muito carinho, e tínhamos boas conversas.

Mesmo já doente, mesmo eu protestando dizendo para não fazer aquilo, ela teimosa, ainda

atravessou a rua uma última vez, para me chamar para almoçar. Sempre me vem aos olhos uma 

lágrima quando lembro.

Até hoje, quando desço aquela rua que dá para a sua varanda eu procuro por ela.

Sei que de alguma maneira ela ainda está lá, rezando por todos nós, procurando com

seus lindos olhos azuis, mas sempre enxergando com o coração e acolhendo com um sorriso.

É dona Janda, gostaria de ter te dito muitas coisas, mas a mais importante sempre será

eu te amo!



domingo, 27 de dezembro de 2020

Overdose.

 Tudo parece torto.

Cheguei no último barco.

Talvez devesse ter ficado onde estava e lutado até o fim por 

uma causa perdida.

Mas, pensamentos infames invadiram minha mente e dominaram

meu coração, e eu corri o mais que pude.

Um destino inglório; desapareceria anonimamente deste mundo.

Não foi isso que me prometeram.

E eu fugi.

Sei que estou andando numa praia, mas não sinto a areia nem o cheiro do mar.

A  neblina densa confunde meus sentidos e eu me perco de tudo.

Às vezes tenho vagas lembranças de braços estendidos em minha direção.

Sim, eu já tive alguém.

Pais talvez, ou uma namorada, ou uma amiga, quem pode saber?

Este lugar que estou agora é mais a minha cara, todos são como eu.

Mas como cheguei até aqui?

O mar foi embora com a neblina e a areia se transformou em concreto.

Pessoas vão e vem, circulam sem destino.

Eu estou fazendo o mesmo.

Estou com fome, preciso muito das minhas coisas.

Alguém me ajude, estou desesperado!

Faço como os outros para conseguir o que quero.

Não é legal, mas quem se importa, desde que eu consiga o que quero.

Hoje tirei a sorte grande, consegui muita coisa!

Estou eufórico.

A fome se foi.

A dor se foi.

A luz vai sumindo bem devagarinho.

Acho que vou descansar um pouco agora.

Talvez eu finalmente durma!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Procurando Deus.

Por muito tempo em minha vida me perguntei, cadê Deus?

Fui à igrejas, templos, locais de fé.

 Conversei com padres, pastores, pessoas ligadas a religiões.

Mas, nada acontecia, nada me sensibilizava, estava cada vez mais cético

com minha busca.

A literatura me deixou mais cético ainda.

Um dia estava num lugar muito bonito, mas com o espirito triste, me

sentia deprimido.

Uma brisa mansa, fresca, passou por mim entrando não só pelas narinas, mas

por todos os meus poros.

Me senti muito lúcido e tive a impressão de ter alguém ali, do meu lado.

Não consegui me virar para olhar.

Nem precisei.

Lembrei de quando minha mãe me dizia: tome cuidado! Deus estava ali.

Do olhar de meus filhos: Deus estava ali.

Do abraço de um amigo querido: Deus também estava ali.

Por fim me veio a mente um trecho da bíblia que já tinha até esquecido.

O reino de Deus está dentro de ti e a tua volta; não em palácios de pedra

ou madeiras,

Rache uma lasca de madeira e Eu estarei lá; levante uma pedra e Me encontrarás...

Eu só não havia procurado dentro de mim mesmo.

Ele sempre esteve lá!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

É Natal.

Queria ter nascido velho.

Teria sofrido menos. 

Teria amado muito mais.

Declame um poema para mim, que seja um dos meus.

Toda uma vida passada em um segundo, é muito tempo.

Cante uma música para mim, também das minhas.

Pois, sentirei saudades e ficarei triste e alegre ao mesmo tempo.

Mostre-me uma pintura minha, para eu lembrar o quanto excêntrico sou.

As pedras atrás de mim já estão muito gastas, não me siga para não cair em si mesmo.

Apenas voe sobre elas e siga seu próprio caminho.

Todos nós temos um.

Não sei se já sou um velho, ou um garoto que começa a ver sentido nas coisas.

Não importa.

O barco segue devagar no caminho traçado pelas estrelas.

Talvez eu ande sobre as águas ou pelo espaço, quem sabe?

Tudo é novidade, mas é aquela novidade de quando se é criança com cheiro

gravado na memória e tudo mais!

Sinto voltar em mim a euforia juvenil.

E pensar no quanto já vivi.

Nunca será mais a mesma coisa, e dai!

As flores que já estavam mortas no vaso murcharam e ficaram feias.

Amanhã colocarei novas flores mortas no mesmo vaso.

Tudo se repete sempre.

Tudo acontece conforme o que foi combinado previamente.

Não desta vez.

Alguém fugiu.

E uma criança chora no final da rua.




segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Doce Colina.

Sempre fomos enganados por promessas que não se cumpriram.

A vida, às vezes é só uma velha mentirosa.

Onde estamos agora?

Pra onde vamos se os sonhos acabarem?

Só queria sobreviver para ver tudo verde novamente enquanto o cinza se desfaz.

Meus passos são incertos.

Mostra-me o caminho seguro por entre os perigos das pedras, das pessoas.

Eu sou a terra que enxugará esse mar de lágrimas.

Serei sal?

Queria ser as delicadas e constantes brumas que emanam da minha verdejante

Doce Colina.

A neblina mágica que esconde a floresta e o vale, até que o sol venha para mostrar

toda a verdade, linda verdade.

Serei o último Caminhante Branco a encontrar o seu lugar?

Não terei como voltar depois de tirar minha máscara!

Talvez a comunhão com o novo lar me transforme em outro ser?

Ou talvez eu já seja outra pessoa há muito tempo.

Quero viver para sempre nesse novo lar fluido, leve com sons maravilhosos.

Aqui a vida explode de todas as maneiras em todos os lugares, a terra é fértil e 

rica, a água doce e pura, o céu de um forte tom de azul, que brinco comigo mesmo

imaginando figuras de fadas com as nuvens branquinhas.

No entardecer, bandos de pássaros passam a minha altura indo se recolher

e no céu carmesim se mesclarão com suas cores vivas formando o mosaico

perfeito para o final de tarde.

Contarei histórias sob as estrelas na noite nua e serei feliz, e talvez mais feliz

quando tiver de me juntar à elas no espaço sem fim.

Quando eu acender as grandes fogueiras no inverno, seres ancestrais dançarão sobre 

as brasas e mostrarão varias de suas formas em minha homenagem dando-me boas vindas

porque o lar dos antigos Caminhantes já me aceitou há muito tempo.

E quando chegar o Solstício de Verão, minha simbiose estará completa e serei como os

antigos Caminhantes, parte imortal de tudo isso aqui!


domingo, 22 de novembro de 2020

Elementais.

O que me alegra é plantar, ver brotar, crescer, frutificar.
Da eclosão do ovo, nasce o filhote do canário que fez o ninho
no beiral da casa.
Flores que nascem e desabrocham por toda parte, no mato no jardim, no vaso.
A festa que meus cães fazem comigo por qualquer coisa, a confiança o carinho
deles por mim.
Os bichos que aparecem de repente em casa por não entenderem o que eu estou
fazendo ali, na sua casa.
Lugar agora onde coisas do homem acontecem. 
Coisas inexplicáveis acontecem. 
Coisas de Deus sempre aconteceram.
Fiz daqui também meu lugar, peço licença, vou ficar!
Não atrapalho fico quietinho no meu canto, em troca plantei frutos para todos
nós, a terra me sorri, pois eu a amo.
Também tem quirera, alpiste e painço para os pássaros.
Para os tatus, pacas e capivaras, tem mandioca, milho e cana.
Se aparecer um Lobo-guará, lá se foi uns frangos, mas é assim mesmo, a natureza
nunca peca em seu ciclo.
O dia é intenso, pois o trabalho que eu vejo como diversão não termina nunca.
Coisas que faço, coisas que invento, tenho que rir de mim mesmo o dia inteiro.
Finalmente estou me divertindo, fazendo o que sempre quis, o que gosto.
E eu nem usei ainda meu detector de metais para procurar os tesouros do meu bisavô.
Mas, já observei a chuva, a neblina subindo das montanhas! Um dia vi um arco-íris por inteiro
de ponta à ponta nas montanhas, foi lindo.
Ver o sol da manhã refletir no riacho lá embaixo no vale, enquanto as vacas pastam, o
canto das seriemas em algum lugar na mata.
As noites são de alegrias, de fogueiras, de cometas e coisas que não sei explicar.
São tantas coisas que estou revivendo novamente, que minha mente ferve nesse corpinho
já castigado pela vida.
O tempo já não importa, apenas paro e observo a planta crescer, o bicho nascer e a vida
começa a fazer sentido.
Só peço a Deus, um pouco mais de tempo, agora que cheguei até aqui.
Um pouco mais de saúde, para poder continuar me divertindo com meu trabalho.
E muito amor pelo meu novo mundo elementar, tão necessário a todos os seres que o procuram.
Não sei se estou na palma da mão de algum ser mágico, só sei que estou feliz, e danço, danço...

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

O homem foguete.

Me sinto como um foguete que vai deixando seus estágios para trás.

Estou apenas subindo enquanto meu tamanho diminui, minha carga fica

mais leve, minhas preocupações vão dando lugar a outras coisas.

Será que eu apaguei o fogo do arroz?

Que importância tem isso agora, eu não estou mais lá!

Aquela conta vencia hoje! 

Também não sei como irão receber.

Eu que era tão preocupado com tudo, a torneira pingando, as luzes acessas sem

necessidade, o que farão sem mim?

Tudo!

E talvez melhor.

Vão sentir saudades?

Sim, alguns.

Estou divagando com perguntas e respostas, amo todos que ficaram, gostaria 

de ter dito isso com mais frequência a todos eles, que pena!

Espero não ter deixado ninguém magoado comigo, se deixei não tenho mais

como reparar isso ou pedir desculpas.

Estou me vendo por inteiro agora no meu longo caminho de vida.

Coisinhas que pareciam tão pequenas, tão sem importância naquela época, 

agora são tudo que eu queria ter feito, queria ter dito, queria ter vivido.

Esse talvez seja meu último peso imaginário que ainda sinto no coração, 

aquela dorzinha que parece ter vida própria.

Enfim, o que ficou para trás, bom ou ruim, agora é irreparável, já passou.

A vida nos dá todas as oportunidades de fazermos o que quisermos sempre, 

se fazemos o certo ou o errado, é problema nosso.

Só mesmo num momento como esse, de expiação, é que você mesmo se cobra,

você mesmo é o seu juiz.

Nem tudo que você se lembra foi legal ou bom.

Não me sinto muito bem por isso, mas fazer o que! 

Teve muita coisa boa também.

Momentos lindos.

Estou chegando no meu último estágio, acho que faz parte do processo

perder a consciência agora, não importa para onde eu vá, aprendi que as

mínimas gentilezas, os pequenos gestos, sempre importam.

Espero me lembrar de usá-los, adeus!